‘A magia dos zines está na troca de energia’

Se você ouvir o nome Elaine Cristina Silva não vai reconhecer de primeira, certo? E se ouvir algo sobre a ‘Dona Fanzine’? Aí, com certeza, você irá ligar o nome à pessoa. Mas afinal, como será que a Elaine Cristina virou Thina Curtis? “O apelido Tina surgiu com uns 11, 12 anos, por causa da personagem do Mauricio de Souza. Eu era muito alta, uma das maiores da turma, nerd, roupas diferentes, e também foi uma forma de diferenciar, porque tínhamos um grupo com várias amigas com o mesmo nome. Depois acabei acrescentando o Curtis quando assinava meus poemas, devido a minha paixão pelo Ian Curtis. Coisa de adolescente, só que pegou e aí, cá estou até hoje.”

Thina nasceu em Santo André, em 1975, e até hoje vive na cidade do ABC Paulista, onde atua como professora e, mais que isso, construiu um dos nomes mais significativos do fanzine nacional. Na entrevista a seguir, concedida a Angelo Davanço pelo Facebook, ela conta um pouco de sua trajetória, fala sobre seus fanzines, oficinas e eventos. Confira:

Como o fanzine surgiu em sua vida?
Por acaso, eu fazia e nem sabia que tinha nome, fui saber um tempo depois, que uns amigos me mostraram, me encantei e de lá para cá nunca mais parei, sempre estou envolvida com algo relacionado aos fanzines.

Quais os títulos que você jáeditou?
Olha, eu já perdi as contas, vou citar os mais recentes e conhecidos:  “Spell Work”, que já vai para 17 anos, “Sacred”, “Violet Arcana”, “Substance”, “Closer”, “Unknown Pleasures”, “Poesias em Quadrinhos”, e o “Café Ilustrado”, que foi premiado como melhor Fanzine no Troféu Angelo Agostini de 2017.

Como surgiu o ‘Café Ilustrado’? O que ele traz?
Há tempos queria fazer algo relacionado ao café, que é uma das minhas paixões, e também faz parte da minha história, meus avós eram trabalhadores rurais, tios, primos e meu pai também antes de vir morar em Santo André. Acabou sendo uma homenagem aos meus familiares e minhas lembranças e também uma forma de expressar a poesia cotidiana que passa batida no dia a dia, e o café acaba sempre nos fazendo companhia. Fabi Menassi ilustrou, ela que já é uma grande parceira de vários trabalhos em HQ, e ficou algo com a nossa cara, já que também muita coisa nos poemas foi conversada nos términos de nossas atividades na escola, onde tínhamos um projeto de arte educação.

E a premiação no Angelo Agostini, como foi?
Foi e ainda é uma surpresa para mim e para Fabi. É muito gratificante ver seu trabalho receber uma premiação, ainda mais com tanta importância. E para nós ainda foi bem maior a satisfação por duas mulheres ganharem o prêmio. Foi bacana porque muita gente não conhecia nossos projetos, não só com fanzines, temos várias atividades de arte educação. Em seguida também fomos contempladas pela terceira vez no Salão Internacional do Humor de Piracicaba, na Mostra Batom, Lápis & TPM, então foi um início de ano com muitas alegrias, mas acredito que estamos colhendo os frutos que plantamos também.

E a Fanzinada, como e quando surgiu?
Fanzinada surgiu em 2011, para celebrar no Brasil, pela primeira vez, o Dia Internacional do Fanzine. Eu sempre encontrava fanzineiros nos happy hours da Galeria do Vinil, onde andávamos nos encontrando na Combat Rock, mas sentia a necessidade de um encontro onde as pessoas pudessem conversar, trocar ideias e lançar publicações. É um evento para celebrar os fanzines. Uma ação simbólica pela preservação da memória dos zines no Brasil. É não deixar a história dos fanzines morrer, um resgate cultural da arte impressa.

Como são as oficinas que você coordena?
As oficinas geralmente acontecem nas periferias, onde a maioria não tem acesso a arte e cultura, embora tenham a arte e a cultura dentro de si. As oficinas dependem muito do público, algumas são direcionadas a jovens, outras ao público infantil, à terceira idade, outras são temáticas, também dentro de escolas, projetos culturais alternativos, ONGs. Depende muito da demanda, a ideia é fazer uma provocação e estimular a criatividade. É você entender que pode criar, publicar, ter suas próprias ideias. Trabalho muito com poesias, colagens, fotografias e temas como o feminismo, gênero e direitos humanos. Nas escolas geralmente associamos a algum tema e o bacana que a forma que se aborda os assuntos no fanzine é diferente da escola, você tem liberdade e isso faz a diferença. Recentemente ministrei oficinas em um posto de saúde aqui onde moro, com um grupo da terceira idade, e foi muito legal, um dos temas era a depressão e a sexualidade na terceira idade. Elas adoraram e até reclamaram de só terem aulas de artesanato, que queriam mais atividades assim!

Como é fazer fanzine em tempos de internet?
Olha, para mim não mudou muito, eu continuo fazendo as coisas bem simples, quase artesanalmente, a diferença é que hoje você consegue divulgar muito, trocar ideias com as pessoas, tudo de uma forma muito veloz. O legal é que você fica sabendo de tudo que está acontecendo, quem está produzindo, dos eventos, encontros e tudo que se relaciona aos zines e publicações. Continuo trocando fanzines em eventos e por carta, acho que a magia dos zines está justamente aí, nessa troca de energia, de contato real. Muitas pessoas acabam me procurando nas redes sociais para pesquisa sobre fanzines, matérias e isso é gratificante também.

Está trabalhando em novos projetos?
Estou ministrando algumas oficinas, escrevendo alguns poemas, fazendo algumas parcerias novas. Participo do coletivo de quadrinhos Chroma e faço Ação Social e oficinas de fanzines e empoderamento feminino através de HQs com as Minas Nerds. Também sou do Coletivo Rock ABC. Em maio celebramos os seis anos da Fanzinada, enfim, estou produzindo, editando zines, trabalhando, cuidando dos filhos, do marido, da casa, do cachorro, das plantas (risos).

Fotos: Arquivo pessoal

Nossa capa, por Josi

A capa do {ofizine} de julho/agosto de 2017 é um trabalho da quadrinista e fanzineira ribeirão-pretana Josiane O. M. Hierikim, a Josi, 31 anos. Seu primeiro personagem é o Castro, o castor, criado em 2010. Com o passar do tempo, outros dois personagens passaram a fazer parte das curtas histórias do castorzinho: Paolo, o polvo; e Dumont, a Tartaruga.

Outro trabalho paralelo são as tiras dedicadas ao Jesus com Frizz, que contam a história do todo poderoso com bem menos glamour e sofrimento do que ouvimos na igreja ou lemos na bíblia. “O Jesus dos quadrinhos é um cara perdido, que não sabe como dar um jeito no mundo. Na verdade, ele nem acha que isso ainda é sua obrigação. E, para piorar, ainda sofre com frizz em seus cabelos”, explica Josi.

E das tiras para os fanzines foi um pulo. “Os zines surgiram com a necessidade de levar o material para eventos e festivais dedicados aos quadrinhos”, explica a ilustradora. O primeiro zine foi publicado em 2015, para exposição no FIQ! Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte. Até hoje foram publicados três zines do Castro e em um deles é possível conferir algumas aparições do Jesus com Frizz. E vem mais por aí. “Um novo zine deve surgir a qualquer momento, compilando as novas tiras do castor, publicadas apenas na internet.

Na ilustração da capa que criou para o {ofizine}, a Josi trabalhou como sempre faz com seus personagens. “Esta capa representa o que de fato é o zine do Castro, o castor, uma publicação independente, que não gera nenhum tipo de lucro financeiro, porém feita com muita dedicação. A ilustração foi feita de forma bem simples e tem como principal recurso tecnológico o balde de tinta do Photoshop. O restante ficou por conta de uma folha de rascunho e uma caneta quase sem ponta de nanquim descartável. Mas a riqueza do desenho, essa não pode ser expressa por palavras. É um desenho feito de coração para todo mundo que curte tiras em quadrinhos”, diz.

Para conhecer mais do trabalho desenvolvido pela Josi, basta acessar as páginas do Castro, o castor e do Jesus com Frizz no Facebook.

Nossa capa, por Fer Merelles

A capa do {ofizine} em maio de 2017 é um trabalho da pedagoga, fanzineira e colagista Fer Merelles, 31 anos, nascida em Guaíba, no Rio Grande do Sul. Editora do Chasing Mark, Fer conta como os zines surgiram em sua vida – “foi durante a adolescência, tive uma forte identificação com o movimento punk e os fanzines eram a melhor forma de se informar sobre bandas e cultura underground.”

Na hora de fazer suas colagens, o trabalho ocorre de diversas maneiras. “Alguns trabalhos partem de um tema e então pesquiso as imagens que vão compor a colagem, outros, brinco com aquilo que encontro ao acaso, ou faço uma mistura de pesquisa com imagens do meu arquivo, tudo depende da proposta, da ideia ou da ocasião”, diz Fer Merelles, que explica a capa feita para o {ofizine}: “Tentei transmitir nessa colagem a leveza e liberdade que os fanzines proporcionam, utilizei imagens femininas para ilustrar a participação das mulheres em todos os espaços que desejarem. Não tenho muita habilidade com as palavras, acho que por isso escolhi as imagens para me expressar, dificilmente consigo falar sobre uma colagem e a ideia de existirem diversas interpretações sobre meu trabalho me agrada muito, é como se cada um pudesse encontrar nele aquilo que traz em seu olhar.”

Para conhecer mais do trabalho da Fer Merelles, basta acessar a página do Chasing Mark no Facebook.

‘O zine te leva junto’

Quem, no meio dos fanzines nacionais, nunca ouviu falar do Márcio Sno? Sejam os veteranos, sejam os iniciantes, todo mundo já conhece o trabalho desse paulistano que não para de pensar em punk, Odair José, Ronie Von ou o cramunhão, sempre com o seu cão Hulk por perto, dividindo espaço com papel, cola, tesoura, zines, o documentário “Fanzineiros do Século Passado”, o livro “O Universo Paralelo dos Zines” e muita, mas muita criatividade mesmo.

Pense bem – teria outra pessoa pra iniciar a série de entrevistas com fanzineiros do Ofizine? Leia abaixo o papo que Angelo Davanço teve com o Sno por e-mail.

Quem é o Márcio Sno?
Nasci há 42 anos no tradicional bairro da Moóca, com a minha irmã Mônica. Sim, sou gêmeo. Meu nome para os credores é Márcio Mitio Konno. Sim, sou de origem japonesa. O Sno vem de minha pré-adolescência, quando cada um em minha turminha da rua tinha que criar um “nome de guerra” e eu gostava de desenhar o Snoopy e veio daí. Sempre morei na mesma casa, na região de Interlagos, zona Sul da capital paulista. Embora tenha rostinho de adolescente, tenho um filho de quase 19 anos, o Calvin. Sim, baseado no personagem de Bill Watterson. Me formei jornalista por idealismo, motivado pela minha experiência anterior com zines.

Como foi seu primeiro contato com os fanzines?
Era começo dos anos 1990 e eu estava de saco cheio das mesmas coisas que rolavam nas rádios rock. Nessa época já ouvia muita coisa punk, como Cólera, Ratos de Porão, Ramones, etc. Consumia todo tipo de revista de rock, sempre em busca de coisas novas. Na Rock Brigade tinha uma seção chamada Headbanger Voice, com classificados de bandas mostrando seus trabalhos. Fiz contato com várias bandas nesse período. Mas tinha uma parte nessa seção que me intrigrava: “Fanzines”. O que é isso? Não tinha esse termo no dicionário, não existia computador e internet pra “dar um Google” e ninguém próximo sabia do que se tratava. Na caruda, mandei umas cartas perguntando: “quanto custa o seu fanzine?”, numa panca de que já sabia do que se tratava. As respostas vieram, “não sei quantos selos” – pois nessa época selo era moeda corrente -, e eu mandei. Dias depois chegaram em minhas mãos os zines, lembro que o primeiro foi o Secret Face. Ah, então isso que é zine? Cheguei a colaborar com textos e ilustrações para alguns. Em um dia, indo para o trabalho, acordei com a ideia de fazer meu próprio zine e nunca mais voltei.

Qual foi o primeiro fanzine que lançou? Sobre o que era?
O primeiro foi o Aaah!!, um zine que tinha objetivo de divulgar materiais de artistas independentes: desenhistas, quadrinistas, poetas e, principalmente, bandas de rock. Foram lançadas seis edições desse zine, inclusive uma com 120 páginas. Loucura para uma época em que não tinha computador e o custo de vida era muito alto. Mas eu fiz contato com gente de tudo que é canto do mundo e recebia muito material. Então, tinha que dar um jeito de caber tudo em uma edição, pois a gente nunca sabia quando ia sair a próxima edição. Se saísse.

Quais outros títulos você lançou?
Meu, eu já lancei zines pra caramba. Não tenho ideia de quantos exatamente lancei. Talvez algo entre 40, 50… Só de 2015 pra cá, foram uns 20. Dos que lancei, destaco: Pleasure, Arreia, O Rock de Rodinei, Haicobra, Odair Jozine, Coisinhas pra Alegrar, Conselhos do Encostinho, Encosto, Em Caso de Queda, Carteira, etc.

Como foi o trabalho de criação do ‘Fanzineiros do Século Passado’?
Assim como quase tudo em minha vida, esse documentário veio sem querer. Estava fazendo pesquisa para a produção de meu livro “O Universo Paralelo dos Zine” e passei a ver uns documentários sobre zines em lugares como França, Belarus, Canadá, Inglaterra, Estados Unidos e Argentina. E não achei nada que falasse essencialmente de zines no Brasil (mais tarde descobri que tinha um feito em Brasília). Nessa época ainda comia dos frutos do documentário que fiz na faculdade com um amigo, o INGs – Indivíduos Não Governamentais, que rodou vários lugares. E essa coisa ficou matutando na minha cabeça: como ainda não tem nada no Brasil sobre zines? O que eu fiz? Eu fiz. Esse meu amigo da faculdade me emprestou sua câmera e me ensinou o básico pra gravar e saí gravando. Como conheço muita gente que produziu zines, não foi muito difícil arrumar as fontes. Deu muito trabalho, tem um monte de problemas técnicos, mas tenho um baita orgulho dessa produção.

Onde o doc foi exibido? Vem mais por aí?
Meu, em tudo que é lugar. Não tenho ideia dos muitos lugares que ele rolou. No começo até colecionava cartazes e flyers, mas desisti. Creio que no Brasil todo já rolou. No primeiro capítulo botei legendas em inglês tosco e rolou no Canadá, Estados Unidos, Turquia, Belarus, Argentina, Inglaterra… Tá circulando… Estava na metade da colocação de legendas do segundo capítulo, mas perdi meu HD e desisti. Um dia ainda retomo. Não sei quando. Mais? Não sei. No momento posso te responder que não. Sou uma pessoa que curte determinados formatos em certas épocas. No momento, só me apetece o impresso. Às vezes me aparece umas ideias no formato audiovisual, mas quando lembro do trabalho que dá, eu logo desencano e tento canalizar isso no papel. Tenho um roteiro de um programa pra internet pra falar sobre zines mas, por enquanto, ficará no meu caderninho.

Como é o seu trabalho com as oficinas de zines? Para qual público se destinam?
Eu entrei nessas de oficinas, mais uma vez, sem querer. Em 2005, quando estava desencanado dessas coisas de zines, meu amigo Xan Braz me chamou para uma oficina em Barra Mansa/RJ. Depois de muita insistência dele, resolvi ir. E não parei mais. Hoje virou meu trabalho. Veja você: ganhar dinheiro com zines! Impensável em 1993. Não tenho um público específico. A partir dos 6 anos (embora tenha trabalhado com menores) eu trabalho com quem for. Já fui em lugares diversos pelo Brasil: escolas, centros culturais, ONGs… Já tive cachês astronômicos e dei muitas oficinas voluntariamente. Não nego convites: se me pagar, maravilha, se não, beleza, vamos lá. Dar oficinas de zines é mais do que um trabalho, é dar ao fanzinato um pouco do muito que ele me deu. Estou atualmente retomando um trabalho para um metazine sobre oficinas de zines que comecei em 2014. Aguardem novidades.

O que é fazer fanzine de papel hoje, em tempos de internet e redes sociais?
Nunca dei bola pra esse papo de rivalidade de impresso com digital. Sempre acreditei que um pudesse complementar o outro, e essa crença se firmou por conta da minha pesquisa: havia uma época em que a produção de zines nos Estados Unidos, Canadá e Europa estava uns 10 anos a frente da gente! Hoje já está bem nivelado, tanto em questões de eventos quanto na qualidade dos materiais lançados. Fazer zine hoje com internet é maravilhoso. Não só em relação à velocidade e praticidade da informação, mas também porque o poder aquisitivo é bem diferente da época em que comecei a fazer. Hoje em casa tenho computador, escaner e impressora a laser: olha que coisa linda! Eu uso os recursos de internet e redes sociais a meu favor sempre. Já realizei diversos projetos coletivos por meio desse suporte. Atualmente estou com um rolando e as redes sociais são fundamentais. Porém, deixei aquele papo de “ah, na minha época era melhor” pra lá. Estou curtindo muito os recursos que tenho para poder concretizar minhas ideias, que não são poucas!

O público dos zines se renova?
Sempre. Além das oficinas que dou, participo de muitas feiras de publicações independentes e sempre vejo uma galera nova que está em busca de consumir zines e, consequentemente, produzir seu próprio material. Acho isso divino! Tem uma molecada se apropriando dos recursos de forma positiva, sempre trazendo possibilidades novas e boas. O zine precisa de renovação constante. Se ele ficar parado vira passado. Ele tem um impulso implícito que diz: “vai em frente”. E ele vai. E te leva junto.

Qual conselho você dá para quem quer encarar o desafio de fazer um zine?
Faça. Não tenha medo. As pessoas geralmente temem o que vão achar, que vão se expor, que vão rir delas… Confesso que no começo tinha esse medo, mas depois que vieram os retornos, não parei mais: são 24 anos dedicados aos zines! Claro, tenho medo de coisas que escrevi lá no começo, mas que para mim, naquele momento, foram fundamentais para dizer ao mundo: oi, eu existo! E cá estou.